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Birras nas crianças: o que fazer e como lidar?

03-07-2026 7 min
Birras nas crianças: saiba porque acontecem, o que fazer durante uma birra, quando manter o limite e quais os sinais que podem justificar uma avaliação profissional.

O que fazer quando uma criança tem uma birra?

Em resumo: As birras são frequentes na primeira infância e fazem parte do desenvolvimento de muitas crianças. Durante uma birra, a prioridade é garantir a segurança, procurar manter uma resposta calma e consistente e adaptar a forma de agir à idade da criança, ao contexto e ao comportamento que está a acontecer. Uma birra isolada não permite concluir que existe um problema. A frequência, a intensidade, a duração, as situações em que acontece, a forma como a criança recupera e o impacto no dia a dia ajudam a perceber melhor se o padrão merece atenção.

Conteúdo desenvolvido por Tânia Caetano

Psicóloga Clínica e Neuropsicóloga, Doutorada em Neuropsicologia
Última revisão científica: agosto de 2026

As birras podem deixar mães, pais e cuidadores sem saber qual é a melhor forma de responder. A criança pode chorar, gritar, recusar colaborar, atirar-se para o chão ou reagir com uma intensidade difícil de gerir.

Compreender porque acontecem as birras ajuda a lidar melhor com estes momentos e a perceber quando estamos perante comportamentos frequentes nesta fase do desenvolvimento ou perante um padrão que merece ser observado com maior atenção.

O que são birras e porque acontecem?

As birras são episódios em que a criança expressa emoções de forma muito intensa e podem incluir choro, gritos, recusa em colaborar, atirar-se para o chão, bater ou lançar objetos.

São frequentes na primeira infância e podem surgir perante frustração, limites, mudanças de atividade, cansaço, fome, doença ou quando a criança não consegue fazer ou obter aquilo que pretende.

Nos primeiros anos de vida, várias competências importantes para lidar com estas situações, incluindo a linguagem, o controlo do comportamento, a tolerância à frustração e a regulação emocional, encontram-se ainda em desenvolvimento.

Por isso, uma reação emocional intensa não significa, por si só, que a criança esteja a ser mal-educada, a manipular o adulto ou a tentar conscientemente contrariá-lo.

Compreender aquilo que está a acontecer também não significa permitir todos os comportamentos. É possível reconhecer o que a criança sente e, ao mesmo tempo, manter um limite adequado.

Birras aos 2 anos: é normal?

Sim. As birras são muito frequentes aos 2 anos e são comuns nesta fase do desenvolvimento.

Nesta idade, a criança procura cada vez mais autonomia. Quer escolher, experimentar, fazer sozinha e afirmar aquilo que prefere. Ao mesmo tempo, capacidades como esperar, tolerar a frustração, adaptar-se a mudanças e regular emoções intensas continuam em desenvolvimento.

Esta diferença entre aquilo que a criança quer fazer e aquilo que já consegue gerir pode contribuir para episódios de grande frustração.

A investigação mostra também que a frequência das birras tende a diminuir à medida que a criança cresce, embora exista uma grande variabilidade de criança para criança. [3]

A idade, no entanto, não deve ser analisada isoladamente. A frequência, a intensidade, a duração, as situações em que as birras acontecem, os comportamentos que surgem e o impacto no dia a dia também devem ser considerados.

O que fazer durante uma birra?

Durante uma birra, a prioridade é garantir a segurança e procurar responder de forma calma, previsível e consistente.

Não existe uma resposta única que seja adequada a todas as crianças e a todas as situações. A forma de agir deve ter em conta a idade, o contexto, aquilo que desencadeou a birra e os comportamentos que estão a acontecer.

1. Segurança

Se a criança estiver em risco de se magoar ou de magoar alguém, intervenha para garantir a segurança.

2. Calma

Procure manter a sua própria resposta tão calma quanto possível e utilize uma comunicação simples e adequada à idade.

3. Consistência

Se o limite continua a ser adequado, a frustração da criança não significa que seja necessário alterá-lo.

Quando a criança está muito alterada, pode ser preferível utilizar frases curtas e simples, deixando explicações mais longas para um momento posterior.

Quando a intensidade da birra diminuir, será geralmente mais fácil conversar sobre aquilo que aconteceu, identificar emoções e explorar outras formas de agir.

O objetivo não é impedir a criança de sentir raiva, tristeza ou frustração. O objetivo é ajudá-la, progressivamente, a encontrar formas mais adequadas de lidar com aquilo que sente.

Devo ignorar uma birra?

Ignorar a criança não deve ser uma regra geral para lidar com as birras. Em algumas situações, quando não existe qualquer risco, pode ser adequado reduzir a atenção dada a determinados comportamentos. Isso é diferente de deixar de estar presente ou de ignorar aquilo de que a criança precisa naquele momento.

Também é importante distinguir não ceder a uma exigência de ignorar a criança.

Um ponto importante:

É possível manter um limite e, ao mesmo tempo, continuar presente e disponível para a criança.

Por exemplo, perante uma criança zangada porque quer levar um brinquedo:

“Eu sei que querias muito levar esse brinquedo e percebo que estejas zangado. Estou aqui contigo, mas hoje não o vamos levar.”

Se houver comportamentos que coloquem a criança ou outras pessoas em risco, a prioridade é sempre garantir a segurança.

Como lidar com birras em público?

Perante uma birra em público, procure manter os mesmos princípios e limites que utilizaria noutro contexto, sem deixar que a reação das pessoas à volta determine a sua resposta.

Estas situações podem ser particularmente difíceis porque o adulto também pode sentir os olhares, os comentários ou o julgamento de outras pessoas. Essa pressão pode aumentar a vontade de ceder rapidamente ou, pelo contrário, levar a uma resposta mais irritada.

Sempre que possível:

  • garanta a segurança da criança;
  • aproxime-se e fale de forma breve e clara;
  • mantenha o limite se continuar a fazer sentido;
  • reduza estímulos quando o ambiente estiver a dificultar a situação;
  • procure um local mais tranquilo, se isso puder ajudar;
  • deixe explicações mais longas para quando a criança estiver mais calma.

O objetivo não é terminar rapidamente a birra por causa das pessoas que estão a observar. O foco deve estar na criança, na segurança e na resposta mais adequada à situação.

Como ajudar a criança a regular as emoções?

A capacidade de regular as emoções desenvolve-se progressivamente ao longo da infância e depende da interação entre características da criança, desenvolvimento, experiências e contexto familiar e social.

A investigação mostra que a forma como os adultos regulam as próprias emoções e respondem à criança está associada à regulação emocional infantil. Estas relações são complexas e não significam que exista uma técnica parental que, por si só, determine a capacidade de autorregulação da criança. [5] [6]

No dia a dia, pode ser útil:

  • ajudar a criança a identificar e dar nome às emoções;
  • utilizar uma linguagem emocional adequada à idade;
  • manter rotinas suficientemente previsíveis;
  • antecipar mudanças ou transições que costumam ser difíceis;
  • estabelecer limites claros e adequados à idade;
  • mostrar formas não agressivas de lidar com a frustração;
  • proporcionar oportunidades de brincar e interagir;
  • retomar situações difíceis quando a criança já estiver calma.

Até que idade são normais as birras?

Não existe uma idade exata em que as birras devam desaparecer. São mais frequentes nos primeiros anos de vida e, de forma geral, tornam-se progressivamente menos frequentes à medida que a criança cresce.

Um estudo que comparou crianças entre 1 e 5 anos encontrou uma diminuição clara das birras quase diárias com a idade. Estas foram reportadas em 11,9% das crianças de 2 anos, 5,1% das crianças de 3 anos, 3,9% das crianças de 4 anos e 2,4% das crianças de 5 anos. [3]

Aos 5 anos, a situação mais frequente nesse estudo era ter ocorrido apenas uma ou duas birras no mês anterior, observada em 54,1% das crianças, enquanto 20% não tinham tido nenhuma birra nesse período. [3]

Outros dados longitudinais sobre o desenvolvimento do comportamento infantil mostram também uma tendência de diminuição dos comportamentos disruptivos, incluindo as birras, entre os primeiros anos de vida e a entrada na escola. [7]

Isto não significa que uma criança de 4 ou 5 anos já não possa ter uma birra. Episódios ocasionais de grande frustração podem continuar a acontecer. O que se espera, de forma geral, é que as birras muito frequentes se tornem menos comuns com o crescimento.

Por isso, mais importante do que procurar uma idade em que as birras “devem acabar” é observar com que frequência acontecem, como são, em que situações surgem, como a criança recupera e quanto interferem com o seu dia a dia.

Como saber se uma birra é normal ou preocupante?

Uma birra isolada pode fazer parte do desenvolvimento infantil. Para perceber se existe motivo para maior atenção, é necessário olhar para o padrão ao longo do tempo e para o impacto no dia a dia da criança.

Mais comum nesta fase do desenvolvimento

  • birras associadas a frustrações, limites ou mudanças compreensíveis;
  • episódios ocasionais;
  • a criança consegue recuperar depois da birra;
  • o dia a dia da criança e da família não fica significativamente afetado.

Sinais que merecem maior atenção

  • birras persistentemente muito frequentes ou intensas;
  • episódios imprevisíveis, muito prolongados ou destrutivos;
  • agressividade intensa ou comportamentos em que a criança se magoa a si própria;
  • grande dificuldade em recuperar depois da birra;
  • impacto significativo na vida familiar, social ou educativa.

Estes sinais não permitem, por si só, fazer um diagnóstico. Devem ser interpretados tendo em conta a idade, o desenvolvimento, o contexto e o funcionamento global da criança.

Quando procurar ajuda profissional por causa das birras?

Pode ser importante procurar uma avaliação profissional quando as birras são persistentemente muito intensas ou frequentes, apresentam características pouco esperadas para a idade ou interferem significativamente com o dia a dia da criança ou da família.

Pode justificar-se uma avaliação mais cuidada quando existem:

  • episódios muito frequentes ou muito intensos;
  • agressividade intensa ou persistente;
  • comportamentos em que a criança se magoa a si própria;
  • episódios particularmente destrutivos;
  • grande dificuldade em recuperar depois da birra;
  • impacto significativo na vida familiar, social ou educativa;
  • outras preocupações relacionadas com o desenvolvimento, a comunicação, o comportamento ou o funcionamento emocional.

Nenhum destes sinais, isoladamente, significa que exista uma perturbação. Uma avaliação adequada considera a criança como um todo e tem em conta o seu desenvolvimento e contexto.

O que fazer depois de uma birra?

Quando a criança recuperar a calma, pode ser útil falar brevemente sobre aquilo que aconteceu, ajudar a dar nome ao que sentiu e reafirmar os limites necessários.

Com crianças pequenas, não é necessária uma conversa longa.

Por exemplo:

“Ficaste muito zangado porque querias continuar a brincar.”

“Podes estar zangado. Mas não podes bater.”

À medida que a linguagem e as competências de regulação emocional se desenvolvem, o adulto pode ajudar a criança a encontrar outras formas de comunicar aquilo que precisa e de lidar com a frustração.

Perguntas frequentes sobre birras nas crianças

Estas são algumas das dúvidas mais frequentes de mães, pais e cuidadores sobre as birras na infância.

Quanto tempo é normal durar uma birra?

Não existe uma duração que, por si só, permita dizer se uma birra é normal ou preocupante. Num estudo com crianças entre os 18 e os 60 meses, 75% das birras descritas duravam cinco minutos ou menos. A duração deve ser analisada juntamente com a frequência, a intensidade, o contexto, os comportamentos que surgem e o impacto no dia a dia. [2]

É normal uma criança ter birras todos os dias?

As birras ocasionais são muito frequentes nos primeiros anos, mas as birras diárias são menos comuns. Num estudo com 1.490 crianças em idade pré-escolar, 8,6% apresentavam birras diariamente. A frequência deve ser analisada em conjunto com as restantes características dos episódios. [1]

Uma criança de 5 anos ainda pode ter birras?

Sim. Uma criança de 5 anos pode continuar a ter birras ocasionais. No entanto, as birras muito frequentes são menos comuns nesta idade do que aos 2 ou 3 anos. Num estudo com crianças entre 1 e 5 anos, apenas 2,4% das crianças de 5 anos apresentavam birras quase diariamente. Mais importante do que uma birra isolada é perceber com que frequência os episódios acontecem, como são e que impacto têm no dia a dia. [3]

O que fazer se a criança bater durante uma birra?

Se a criança bater ou tentar magoar alguém durante uma birra, a prioridade é interromper o comportamento e garantir a segurança. Pode reconhecer que a criança está zangada e, ao mesmo tempo, deixar claro que não pode magoar outras pessoas.

Ceder acaba com as birras?

Ceder pode fazer terminar uma birra naquele momento, mas isso não significa que seja sempre a resposta mais adequada. Quando existe um limite importante e adequado, a decisão de o manter não deve depender apenas da necessidade de terminar rapidamente a birra.

Uma birra significa que a criança tem um problema emocional?

Não necessariamente. Uma birra isolada, por si só, não permite concluir que exista uma dificuldade emocional ou uma perturbação. É importante observar o comportamento da criança ao longo do tempo, as situações em que as birras surgem e o impacto que têm no seu dia a dia.

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Nota: o eBook é um recurso educativo e informativo e não substitui uma avaliação, diagnóstico ou acompanhamento psicológico individualizado.

Quem escreveu este artigo?

Tânia Caetano

Psicóloga Clínica e Neuropsicóloga, Doutorada em Neuropsicologia.

Na Wanifun, procuramos aproximar o conhecimento científico sobre desenvolvimento infantil do dia a dia das famílias, através de conteúdos claros, rigorosos e úteis.

Referências científicas

As principais afirmações deste artigo foram revistas com base na literatura científica e em fontes clínicas de referência.

  1. Wakschlag, L. S., Choi, S. W., Carter, A. S., Hullsiek, H., Burns, J., McCarthy, K., Leibenluft, E., & Briggs-Gowan, M. J. (2012). Defining the developmental parameters of temper loss in early childhood: implications for developmental psychopathology. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 53(11), 1099–1108. Consultar estudo
  2. Potegal, M., Kosorok, M. R., & Davidson, R. J. (2003). Temper tantrums in young children: 2. Tantrum duration and temporal organization. Journal of Developmental & Behavioral Pediatrics, 24(3), 148–154. Consultar estudo
  3. Van den Akker, A. L., Hoffenaar, P., & Overbeek, G. (2022). Temper Tantrums in Toddlers and Preschoolers: Longitudinal Associations with Adjustment Problems. Journal of Developmental & Behavioral Pediatrics, 43(7), 409–417. Consultar estudo
  4. Daniels, E., Mandleco, B., & Luthy, K. E. (2012). Assessment, management, and prevention of childhood temper tantrums. Journal of the American Academy of Nurse Practitioners, 24(10), 569–573. Consultar revisão
  5. Goagoses, N., Bolz, T., Eilts, J., Schipper, N., Schütz, J., Rademacher, A., Vesterling, C., & Koglin, U. (2023). Parenting dimensions/styles and emotion dysregulation in childhood and adolescence: a systematic review and meta-analysis. Current Psychology, 42, 18798–18822. Consultar revisão sistemática e meta-análise
  6. Zimmer-Gembeck, M. J., Rudolph, J., Kerin, J. L., & Bohadana-Brown, G. R. (2022). Parent emotional regulation: A meta-analytic review of its association with parenting and child adjustment. International Journal of Behavioral Development, 46(1), 63–82. Consultar meta-análise
  7. Degnan, K. A., Calkins, S. D., Keane, S. P., & Hill-Soderlund, A. L. (2008). Profiles of disruptive behavior across early childhood: Contributions of frustration reactivity, physiological regulation, and maternal behavior. Child Development, 79(5), 1357–1376. Consultar estudo longitudinal

Em síntese: o que fazer perante uma birra?

As birras são frequentes na primeira infância e fazem parte do desenvolvimento de muitas crianças. Perante uma birra, priorize a segurança, procure manter uma resposta calma e consistente e tenha em conta a idade e o contexto. Para perceber se um padrão merece maior atenção, é mais útil observar a frequência, a intensidade, a duração, as situações em que as birras surgem, a forma como a criança recupera e o impacto que têm no seu dia a dia.


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